A ORIGEM DO ATEÍSMO – 3ª PARTE

A Igreja aumenta a repressão contra os infiéis

Ao perceber o perigo que representavam as ideias libertinas, a Igreja Católica aumentou a lista de heresias, a partir dos anos 1570 e 1580. A “dúvida”, até então tolerada, foi considerada heresia. Ninguém mais podia duvidar das Escrituras Sagradas. A primeira vítima do novo decreto foi um certo Girolamo Bicazza, condenado à fogueira em 1570, na Itália. Ele já tinha sido julgado em 1564, mas escapou da condenação após se retratar, mas no novo julgamento, ingenuamente, frente ao tribunal da inquisição, admitiu que sentia as mesmas dúvidas religiosas de antes.

O número de execuções aumentou muito depois de 1570. Os motivos são variados, mas entre eles aparece cada vez mais o termo ateísmo, que passou a ser usado com frequência, como uma injúria imprecisa. O termo era usado contra qualquer um que pensasse diferente. Outros termos comuns usados como acusação eram o deísmo, que foi criado em 1563, pelo pastor Viret, e referia-se aos que acreditavam em Deus, mas não em Cristo; libertino, que era usado desde a Idade Média para os adeptos do livre espírito, que pregavam a liberdade de costumes, mas que no século XVI adquiriu um sentido de incrédulo; e espírito-forte, que só apareceu no latim no século XVI, referindo-se aos que não creem em nada que não podem ver ou tocar.

Os tratados escritos para refutar o ateísmo se multiplicaram nesse período e a velha preocupação em provar a existência de Deus, que tinha sido abandonada no fim da Idade Média ressurgiu com força total. O número de obras apologistas também cresceu muito nas primeiras décadas do século XVII. Os apologistas atacavam os descrentes e as superstições e usavam os resultados das viagens de exploração para defender a crença de que todos os povos, até os mais primitivos, mostravam alguma crença em um deus criador.


CHARLES DARWIN: A ORIGEM DAS ESPÉCIES (1859)

Charles Darwin, com sua Teoria da Seleção Natural, revolucionou o conhecimento humano.

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AS ORIGENS DO ATEÍSMO – 2ª PARTE

A descrença e o desinteresse pelos dogmas cristãos eram grandes, não diferia muito do tempo romano. Abundam superstições, curandeirismo, crença em objetos que “pertenceram” aos santos. Na Inglaterra, por exemplo, ainda existem pessoas que cultuam o Sol ou a Lua. Grutas, fontes e árvores ainda são objetos de culto em alguns lugares da Itália, da Espanha e da Bretanha.


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O filósofo e matemático francês René Descartes era bastante devoto e condenava o ateísmo. Porém, pelo fato de tentar explicar a natureza por meio de figuras e movimentos, em detrimento à física aristotélica das qualidades, foi acusado por muitos de favorecer os descrentes, iniciando um pensamento hostil à religião. Para muitos, o fato de Descartes ver os animais como máquinas puras, desprovidos de almas sensitivas, dava arma aos ateus, que poderiam colocar os humanos na mesma situação. Na verdade, o perigo que Descartes representava para a fé não estava tanto em seus escritos, mas na sua independência intelectual, na busca da verdade a todo custo e na rejeição das ideias não fundamentadas na razão.

O caminho sem retorno da razão

Em 1663, todas as obras metafísicas de Descartes foram incluídas no Index e o ensino do cartesianismo foi proibido em muitas universidades. Muitos professores foram condenados por ensinarem os princípios cartesianos. Quando morreu, o devoto Descartes e um dos mais importantes e influentes nomes do Pensamento Ocidental, foi enterrado no canto do cemitério, onde ficavam as crianças sem batismo e os pestilentos. Mesmo assim, sua obra foi adotada pelos intelectuais e pela alta sociedade parisiense da época e sua influência atravessou os séculos.

Por outro lado, o filósofo holandês Baruch Spinoza (1632-1677) foi considerado um perigo potencial, por especular que Deus e o Universo eram inseparáveis, pois o universo é uma substância fora do qual nada existe. Isso era contrário aos ensinamentos cristãos e também ao cartesianismo, que repousa sobre o dualismo Deus-Universo.

Nós não desejamos as coisas porque elas nos dão prazer, mas elas nos dão prazer porque as desejamos.

Baruch Spinoza

Depois de Descartes e Spinoza, o filósofo inglês Thomas Hobbes constitui o terceiro polo da incredulidade de ordem filosófica do século XVII. Ao contrário dos outros dois, ele tinha um ponto de vista histórico, sociológico e político, afirmando que os deuses foram criados pelos antigos pelo medo da morte e do que lhes reservava o futuro.

Muitos juristas começaram a separar Deus da moral e do direito, como o jurista alemão Thomasius (1655-1728), acusado de ateísmo e proibido de legislar na Universidad de Leipzig, em 1689. Essa separação ganharia cada vez mais força nos séculos seguintes.


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O atomismo, o maior temor dos religiosos

O que os religiosos mais temiam era o atomismo. Segundo o historiador, Pietro Redonai, o que causou a condenação de Galileu Galilei (1564-1642) não foi a questão do geocentrismo, mas sim por ter colocado o atomismo como a teoria explicativa para todos os fenômenos naturais, em seu livro “O Ensaiador”, publicado em 1623.

Os membros da Companhia de Jesus eram os que mais competiam com a ideia do atomismo, pois acusavam a teoria de tornar incompreensível a transformação do pão em vinho no corpo e sangue de Cristo, “milagre” conhecido como transubstanciação. Essa transformação só podia ser “explicada” pela física aristotélica, que apresenta a matéria como a união entre uma “substância”, ou “realidade profunda”, e “acidentes”, ou “aparências sensíveis”. Pelo milagre eucarístico, a hóstia conserva os “acidentes” do pão, mas a “substância” torna-se o corpo de cristo. Mas uma matéria composta de átomos indiferenciados tornava impossível a conceitualização do milagre.

A Igreja proíbe o ensino do atomismo, mas as proibições não dão resultado e cada vez mais intelectuais aderem a essa teoria, incluindo químicos, físicos, médicos e até alguns religiosos.


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Cresce o número de descrentes por toda Europa

Roma, o centro do catolicismo, era também um grande centro da descrença. No século XVII, a cidade era considerada a maior concentração de ateus de toda a cristandade. Só era proibido atacar o Pontificado, mas muitos protegidos dos cardeais e os séquitos das diversas embaixadas estrangeiras não escondiam sua descrença.

O número de descrentes também era muito grande na Inglaterra e na Holanda, onde havia uma relativa tolerância. Na Inglaterra era famoso o grupo conhecido como “Socinidinos”, que seguiam o italiano Fausto Socino (1539-1604), que negava a Trindade e a divindade de Jesus, além de criticar o credo católico e calvinista. Outro grupo inglês famoso foi formado em torno de Nicols Hill (1570-1610), que era partidário do heliocentrismo, da pluralidade dos mundos e do atomismo.

Durante o interregno entre 1649 e 1660, no Protetorado Republicano de Oliver Cromwell, quando as instituições foram interrompidas, surgiram grupos como os “Diggers”, um movimento camponês, que pretendia criar uma sociedade igualitária cristã, organizada em pequenas comunidades autônomas, que pregavam que o céu e o inferno foram inventados para manter as massas sob controle.

O casamento civil, introduzido na Inglaterra em 1653, diminuiu ainda mais a frequência de fieis nas igrejas. Em 1721, o Parlamento Britânico rejeitou um projeto de lei sobre a blasfêmia, apresentado pelo arcebispo de Cantembury.

A única certeza é que duvido, e se duvido eu penso, e se penso logo existo

René Descartes

Diferenças cristãs e a “Possessão de Loudum”

As diferenças culturais entre os protestantes e os católicos aparecem claramente nos relatos de viajantes ingleses que visitavam a França no século XVII, onde os ingleses desprezam o catolicismo como um conjunto de superstições. Durante o caso que ficou conhecido como “Possessão de Loudum”, em que, no início da década de 1630, diversas freiras ursulinas, de um convento localizado em Loudum, na França, começaram a apresentar comportamentos estranhos e alegaram estar possuídas por demônios, diversos ingleses viajaram para o local, para verem os acontecimentos de perto.

Muitos desses viajantes deixaram relatos escritos sobre o que viram e foram unânimes em apontar tudo como charlatanismo dos padres jesuítas. O dramaturgo Thomas Killigrew (1612-1683), por exemplo, observou que, durante o interrogatório das freiras possuídas, “o padre só falava em latim e o diabo em francês”. O duque de Lauderdale propôs uma experiência: ele falaria uma frase em língua estrangeira e o diabo deveria traduzi-la. O jesuíta ficou confuso e respondeu: “esses diabos não viajaram” e o inglês caiu na gargalhada.

Entre as décadas de 1660 e 1680, a Inglaterra estava impregnada de céticos, que se manifestavam livremente e preparavam diretamente o racionalismo do Iluminismo. Até o final do século XVII, foram criados órgãos para salvar a religião na Inglaterra e as obras apologéticas cristãs se multiplicaram no país.


JORGE BEN: A TÁBUA DE ESMERALDA (1974)

Jorge Duílio Lima Meneses, conhecido como Jorge Ben e Jorge Ben Jor, é um violonista, pandeirista, guitarrista, percussionista, cantor e compositor brasileiro. Em 2008 a revista Rolling Stone Brasil o nomeou como o 5º maior artista da história da música brasileira.

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Investigações científicas dos textos bíblicos.

A partir do século XVII, os textos bíblicos tornaram-se objetos de investigações dos historiadores, que se utilizaram da gramática, da filologia, da cronologia, da arqueologia, da numinástica e da paleogeografia, para demonstrar as incoerências bíblicas. Os religiosos tentam se defender, mas só fornecem mais materiais para as dúvidas. Tudo passa a ser questionado: o pecado original, o dilúvio (“como a Terra seria totalmente inundada por apenas 40 dias de chuva?”, perguntam alguns), os milagres, o gênesis.

Os religiosos datavam a criação da Terra em 4004 a.C., mas muitos textos antigos contradiziam isso, como a lista de dinastias egípcia, redigida por Maneto, sacerdote de Heliópolis, no século III a.c, que mostrava uma época muito anterior ao dilúvio. Os estudiosos enfileiravam listas de dinastias, assírias, babilônicas, sumérias e chinesas, que desmentem as datas cristãs.

Em 1668, o livro “Terremotos e Erupções Subterrâneas”, escrito pelo inglês Robert Hooke (1635-1703), chama a atenção para os fósseis e ele propõe a uma teoria de desaparecimento das espécies, o que contrariava todas as ideias deterministas e criacionistas.


Newton e a Igreja

Isaac Newton (1643-1727) balançou as estruturas intelectuais com a triunfante Teoria da Atração Universal e suas Leis da Gravidade. Newton era extremamente religioso, mas era atomista, não um atomista geométrico, mas um atomista dinâmico, segundo o qual as partículas também são movidas pela atração, além disso ele não acreditava na Trindade e sua obra sobre a cronologia dos reinos antigos contrariavam as datas fornecidas pela Bíblia.

A teoria da atração universal seduz imediatamente o mundo dos eruditos, porém sua integração na visão religiosa do mundo se revela bem difícil. O perigo mais nítido para as ideias cristãs consiste em ver nessa atração uma propriedade da matéria, o que elimina a necessidade do primeiro motor e transforma o Universo numa “máquina” autossuficiente.

O filósofo alemão Leibniz o acusou de ser panteísta e o associou à ideia de um complô ateu para destruir a cultura cristã. Do lado católico, as opiniões sobre ele também se dividiam. O Papa Bento XIV era um grande admirador de Newton, mas os jesuítas do “Dicionário de Trevoux” zombavam ainda das leis da atração na edição de 1721.

Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes.

Isaac Newton

Visões diversas sobre os ateus

Ainda havia uma grande confusão entre a crença e a descrença. O termo ”ateu” ainda é usado de forma muito imprecisa. O filósofo francês Pierre Bayle (1647-1706), que se dizia cristão, mas rejeitava a imaterialidade da alma, o livre-arbítrio, a imortalidade e a providência, em nome das ideias claras e racionais, definia o ateu como aquele que reconhece a intervenção de Deus e rejeita a providência, ainda que admita a providência divina, ou seja, ele equivalia o ateísmo e o deísmo. Para ele, os ateus eram pessoas ponderadas, sérias e discretas, que escondiam sua descrença. Além do mais, os ateus não eram necessariamente amorais, enquanto um grande número de cristãos o era, segundo ele. Não havia motivos, portanto, para que se proibisse o ateísmo, contanto que os seus praticantes respeitassem as leis do Estado.

Já o filósofo inglês John Locke (1632-1704) não era tão tolerante com relação ao lugar dos ateus na sociedade. Para ele, todos os cultos eram toleráveis, com exceção do catolicismo, mas o ateísmo devia ser proibido, pois ameaçava a ordem social: “Como acreditar no juramento de um ateu, se ele não acredita em um juramento divino?”. Para Locke, a fé era necessária, mas devia ser fundamentada na razão. Por isso, ele buscava fornecer uma prova racional da existência de Deus a partir das experiências dos sentidos, mas seu método, que repousava sobre o testemunho dos sentidos e recusava ideias inatas, provocava suspeitas nos teólogos. No entanto, Locke estava sinceramente preocupado com o argumento do ateísmo, como mostram suas últimas obras, dirigidas contra os argumentos dos ateus sobre a natureza da matéria e a origem do mundo.


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A descrença na Inglaterra de 1700

A Inglaterra no século XVIII estava na vanguarda do ateísmo e do deísmo. Muitos fatores contribuíram para isso, como o movimento das ideias oriundas do ceticismo da Restauração, que gozava de relativa liberdade de expressão e foi estimulado pelas lutas políticas contra o absolutismo católico do rei Jaime I. Além disso, a defesa das liberdades fundamentais e individuais foi fortalecida pelo habeas corpus, criado na Inglaterra em 1679, e pela Declaração dos Direitos de 1689. A Inglaterra também era palco de um radical questionamento do cristianismo e das religiões em geral. O iluminismo se inicia nesse século e um de seus componentes essenciais é o ceticismo religioso.

A alta nobreza da corte foi especialmente atingida por esse ceticismo. Alguns casos extremos são conhecidos, como o de John Wilmot (1647-1680), segundo conde de Rochester, amigo do rei Carlos II, que era um ateu cínico e depravado, autor de poesias satíricas e obscenas, um homem sem nenhuma ilusão, que acreditava que “a vida não passa de uma gigantesca farsa e o melhor é aproveitar o máximo possível, sem se deixar estorvar por ilusões morais e religiosas.” Quando ele morreu, foi muito divulgado, pela Igreja Anglicana, que ele teria abdicado do ateísmo e aceitado os sacramentos.


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Na classe média a descrença é mais discreta, mas nas classes populares ela atinge proporções que preocupam a Igreja. Aumentam os casos de blasfêmia e prostituição, proporcionalmente à diminuição da frequência nos cultos e às adesões aos sacramentos. O bispo de Londres conclama à vigilância em 1699. Muitas publicações aumentam os debates sobre a descrença: a biografia de Vanini, as obras de Hobbes e Spinoza, e obras que defendem ou criticam os aspectos da fé. Os livros de viagens apresentam a diversidade cultural do mundo e a moda dos espíritos satíricos, que tudo ridicularizam, aumentam a força da descrença.

A reputação dos cafés é péssima desde a Idade Média, e as tabernas rivalizam com as igrejas em popularidade. No fim do século XVII, as tabernas se tornam centros de uma contracultura que propaga a descrença. Em Londres, perto da Bolsa, uma rua é apelidada de Alameda dos Ateus (“Atheist Lane”), onde se localiza a taberna King’s Hend, um dos locais mais frequentados pelos espíritos fortes, céticos e ateus. Em Oxford, diversos cafés cumprem essa mesma função. Reunir cabeças pensantes, dispostas a questionar a sociedade em que nasceram. Todas essas agitações prenunciavam embates ainda maiores entre religiosos e descrentes no decorrer do século XVIII.


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