ESPECIAL: Epidemias e Pandemias ao longo da História

A palavra epidemia vem do grego epi = sobre, e demos = povo, definida como a rápida disseminação de uma doença sobre um grande número de pessoas, numa determinada população e em um curto período de tempo. Já Pandemia, também com origem no grego, pan = tudo/todo(s) e demos = povo. É uma epidemia que se alastra por uma grande área geográfica, por vezes pelo mundo todo, com um grande número de contaminados por um agente infeccioso. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), uma pandemia é uma doença que infecta humanos causando uma doença que se espalha com facilidade. Sendo assim, uma epidemia é mais localizada e uma pandemia é uma epidemia que se espalha por uma área mais ampla.

            As estratégias básicas adotadas para o controle de uma epidemia ou de uma pandemia são a contenção e a mitigação, que podem ser adotadas simultaneamente em alguns casos, como acontece atualmente com a COVID-19. A contenção inclui o rastreamento de contato, que consiste no processo de identificação das pessoas que podem ter entrado em contato com os infectados e o isolamento das pessoas infectadas, para tentar impedir o alastramento da doença entre a população. Já a mitigação consiste em tentar retardar a disseminação da doença e diminuir os efeitos sobre o sistema de saúde, para que ele não entre em colapso, tentando diminuir o pico da doença, um processo conhecido como “achatamento da curva epidêmica”.

            Essas ações procuram ganham tempo até que um tratamento eficaz seja descoberto. Estre as ações usadas para diminuir o pico da epidemia (período com maior número de infectados) estão o distanciamento social, higienização especifica, uso de máscaras, quarentena de pessoas suspeitas de estarem contaminadas e a limpeza de edificações e vias públicas. Em casos extremos, podem ser adotadas  medidas de supressão, que incluem distanciamento social rigoroso de cidades inteiras, inclusive com bloqueios de acesso às mesmas, como foi adotado em alguns casos na pandemia atual.

            A espécie humana vem sofrendo com as epidemias desde os primórdios da civilização. A mudança de uma vida nômade para uma vida em centros urbanos favoreceu a propagação das doenças infecciosas. Os agentes patogênicos encontraram nesses centros o ambiente perfeito para sua propagação, pois a aglomeração de grande número de pessoas, em locais muitas vezes pequenos e com condições higiênicas precárias facilitaram o contágio, aumentando o número de mortos e, por vezes, levando agrupamentos humanos inteiros ao colapso. Até que a ciência se desenvolvesse e os humanos descobrissem que estavam cercados por microorganismos, muitos deles patogênicos, milhões morreram. Só nos últimos séculos nossa espécie conseguiu criar armas capazes de enfrentar seus inimigos invisíveis a olho nú. A invenção do microscópio e a criação das vacinas, antibióticos e outros medicamentos nos deu uma chance nessa guerra. Algumas doenças se destacam na história humana, como nossos principais inimigos, a varíola, a peste bubônica, a cólera, a gripe, o sarampo, o tifo, a tuberculose, a malária, a febre amarela e a hanseníase se destacam nessa triste história.


Epidemias no Mundo Antigo

            A primeira grande epidemia que se tem notícia ficou conhecida como a “Praga de Atenas”, que aconteceu em plena Guerra do Peloponeso (431 a 404 a.C.), entre as cidades gregas de Esparta e Atenas. Segundo o historiador grego Tucídides (c 460-400 a.C.), que contraiu e sobreviveu a doença, foi uma praga que veio da Etiópia, passou pelo Egito e pela Líbia e se espalhou pelo Mediterrâneo. A cidade grega mais afetada foi Atenas, onde morreram entre 75 mil e 100 mil pessoas, incluindo Péricles, que era o líder da cidade. Ainda segundo Tucídides, temendo a morte, os atenienses deixaram de respeitar as leis sociais e religiosas, e o número de médicos mortos foi alta. Uma escavação nas proximidades de Atenas, em 1994, encontrou uma vala comum com 240 corpos, datada daquele período, comprovando o fato. O agente causador da epidemia é desconhecido, mas os historiadores suspeitam de tifo, febre tifóide ou febre hemorrágica viral.

            Uma outra grande epidemia  assolou o norte da Grécia e a República Romana no ano de 412 a.C. descrita tanto por Hipócrates (460-377 a.C), considerado o “Pai da Medicina”, quanto pelo historiador Tito Lívio (59 a.C.-17 d.C.). O número de mortos é desconhecido, mas foi grande o suficiente para paralisar as atividades agrícolas e causar fome em Roma, que teve que recorrer à ajuda da Sicília e da Etrúria. A doença parece ter matado mais crianças e acredita-se que fosse causado pelo vírus Influenza, responsável pela gripe. A maior epidemia do Império Romano, porém, aconteceu entre 165 e 180 d.C. e ficou conhecida como “Praga Antonina”, pois pode ter matado dois imperadores da família Antonina, que governava Roma na época, Lucio Vero, em 169, e Marco Aurélio, em 180, ou “Peste de Galeno”, referente ao médico grego Cláudio Galeno, que descreveu a doença na época. A epidemia começou no cerco romano à cidade de Seleucia, na região do atual Iraque, no início de 165, e foi levada para a Europa pelos soldados romanos, mas pode ter surgido na China, pois existem relatos de uma epidemia semelhante alguns anos antes. O número de mortos no Império Romano foi calculado entre 5 e 10 milhões, com mortalidade de 25% dos infectados. Duas mil pessoas morriam por dia na cidade de Roma, no pico da epidemia. Acredita-se que foi causada pela varíola.

            A “Praga de Cipriano” assolou a Europa entre os anos 249 e 266 d.C. O nome é uma referência a São Cipriano, bispo de Cártago e um dos primeiros escritores cristãos a escrever sobre a epidemia. O agente causador da epidemia é desconhecido, provavelmente varíola. No auge do surto, cinco mil pessoas morriam por dia em Roma e a crise causou escassez de alimentos e enfrequeceu o exército romano a ponto de enfrequecer a unidade do império. O número de mortos é desconhecido, mas foi maior do que um milhão.


A Peste Bubônica

            A peste bubônica, causada pela bactériaI Yersina pestes, é transmitida aos humanos pelas pulgas de ratos contaminadas. A primeira grande epidemia da doença conhecido foi a “Praga de Justiniano”, uma das mais mortais da história. Ela parece ter começado no Egito, no ano 541, e chegou à Constantinopla na primavera seguinte, matando 40% da população da cidade. Segundo o cronista bizantino Procópio, no auge do surto, dez mil pessoas morriam por dia na cidade. Depois, a doença se espalhou pela Europa, voltando em ondas, de tempos em tempos, até o ano de 750. Foram encontrados evidências de que também assolou a Ásia, até a China. Hoje acredita-se que um quarto da população europeia morreu durante essa pandemia.

            Uma das mais famosas pandemias da história ficou conhecida como a “Peste Negra”, que começou na Ásia, em 1331 e, viajando através da Rota da Seda, chegou à Crimeia em 1347 e ao Mediterrâneo, norte da África, Europa Ocidental e Oriente Médio em 1348, provavelmente levada por comerciantes italianos que fugiram da doença na Criméia. A pandemia matou de 20 a 30 milhões de europeu em seis anos, um terço da população europeia, e voltou periodicamente até a “Grande Praga de Londres”, considerada o fim da epidemia, que, entre 1665 e 1666, matou 20% da população da capital inglesa. A Peste Negra pode ter reduzido a população mundial da época de 475 milhões para 350 milhões, e os impactos sociais e econômicos foram enormes.

            A terceira pandemia de beste bubônica começou em 1855, na China, onde causou cerca de dois milhôes de mortes. Depois, a doença se espalhou pela Índia, onde matou dez milhões. Em 1900 ela chegou, pela primeira vez, aos Estados Unidos, na região de São Francisco, matando 119 pessoas até 1904. Curiosamente, a epidemia foi reconhecida pelas autoridas médicas dos Estados Unidos em 1900, mas foi negada pelo governador da Califórnia, Henry Cage, por dois anos, pois ele queria evitar perdas econômicas no estado. Ele perdeu a credibilidade e as eleições em 1902 e seu sucessor, George Pardee, implantou uma série de medidas para controlar a população de ratos e deu assistência aos efermos, interrompendo a epidemia em 1904. Segundo a OMS, essa terceira pandemia durou até 1960, mas o número de vítimas foi caindo ano a ano, em decorrência dos avanços no tratamento dos doentes; em 1960 foram apenas duzentos mortos.


Varíola, o flagelo dos povos nativos

            Os colonos europeus espalharam doenças entre os povos nativos, a partir do século XVI, em todos os cantos do mundo. A varíola matou grande parte da população nativa das Ilhas Canárias, os Guanches, no século XVI, durante a ocupação espanhola. Metade da população nativa da Ilha de Hispañola (atuais Haiti e República Dominicana) morreu em 1518. Na década de 1520, a varíola devastou o México, matando entre 5 e 8 milhões de pessoas (40% da população do país na época), incluindo 150 mil mortos em Tenochtitlán, capital do Império Asteca; e o mesmo aconteceu no Peru, na década de 1530.

            Nos Estados Unidos, a varíola matou 90% da população nativa da Baía de Massachussets, entre 1618 e 1619. O mesmo aconteceu com 30% da população do noroeste da costa norte-americana do Oceano Pacífico, na década de 1770. Depois, duas epidemias de varíola devastaram os nativos das planícies dos Estados Unidos, a primeira entre 1780 e 1782, e a segunda entre 1837 e 1838. O mesmo aconteceu na Austrália, onde 50% da população nativa morreu vitimada pela varíola, nos primeiros anos da colonização britânica. A devastação foi semelhante entre os moari da Nova Zelândia.

            Foi o médico inglês Edward Jenner (1749-1823) que descobriu a vacina contra a varíola, em 1796. Em 1803, a Espanha organizou uma missão de vacinação em massa nas suas colonias e, em 1832, o governo dos Estados Unidos estabeleceu um programa de vacinação para os povos nativos do país. No século XVIII, a varíola matava cerca de 400 mil pessoas por ano na Europa e estima-se que ao longo do século XX, o vírus da varíola tenha matado entre 300 e 500 milhões de pessoas em todo o mundo, mas campanhas bem sucedidas de vacinação ao longo dos séculos XIX e XX puseram fim ao flagelo. O último caso aconteceu na Somália, em 1977, e, em 1979, a OMS certificou a erradicação da doença. Até hoje, a varíola é a única infecção humana completamente irradicada e um dos dois únicos vírus irradicados, sendo o outro o da peste bovina.


A Cólera

            Causada pela bactéria vibrio cholerae, que causa uma infecção severa do intestino delgado, a partir de água e alimentos contaminados por dejetos humanos, a cólera foi responsável  por sete grandes pandemias. A primeira delas começou em 1817 em Bengala, na Índia, e se espalhou por todo o país até 1820, causando a morte de centenas de milhares de indianos e de dez mil soldados britânicos estacionados no país. Depois, o surto se espalhou pela China, pela Indonésia (com mais de 100 mil mortos apenas na Ilha de Java) e chegou até o Mar Cáspio, até recuar em 1824. A segunda pandemia começou na Rússia, em 1829, atingiu a Hungria (cerca de 100 mil mortos) e a Alemanha, em 1831. Matou 130 mil pessoas no Egito e, em 1832, chegou à Inglaterra (com 55 mil mortes, sendo mais de 6 mil só em Londres), e na França (100 mil mortes, 20 mil em Paris), em 1833 chegou ao Canadá e em Nova York, no ano seguinte cruzou os Estados Unidos, chegando até à costa do Pacífico. Em 1934, a epidemia chegou ao México e terminou em 1837.

            A terceira pandemia de cólera foi a mais longa. Começou em 1846, na Rússia, onde matou um milhão de pessoas, se espalhou rápido e, no mesmo ano, matou 15 mil pessoas em Meca. Chegou ao Reino Unido em 1948, onde matou 48 mil pessoas. Um segundo surto começou em 1849, atacando a França, a Inglaterra (mais de 14 mil mortes em Londres) e a Irlanda.. No mesmo ano chegou aos Estados Unidos, causando um número de mortes maior do que na pandemia anterior (3.000 em New Orleans, 4.500 em Saint Louis, 3.500 em Nova York). No México morreram 150 mil pessoas. Em 1852, a pandemia chegou à Indonésia e em 1854 no Japão (100 a 200 mil mortos). Chegou nas Filipinas em 1858 e na Coreia no ano seguinte, depois se espalhou pela Pérsia, pelo Iraque, Arábia Saudita e Rússia. Em 1854, foi descoberto que a água contaminada era um fator importante de disseminação da doença. Na Espanha, morreram 236 mil pessoas entre 1854 e 1855. Em 1854, a doença chegou à Venezuela e ao Brasil, e, em 1856, matou 25 mil pessoas em Porto Rico, chegando ao fim em 1860.

            O quarto surto começou em Bengala, na Índia, em 1863, e foi levado para Meca por peregrinos muçulmanos, onde matou entre 30 e 90 mil pessoas. Depois, se espalhou pelo Oriente Médio, de onde foi para a Rússia, para a Europa Ocidental, para a África e para a América do Norte. Chegou na África em 1865 e espalhou-se pela África Subsaariana, matando 70 mil pessoas só na Ilha de Zanzibar. Na Rússia foram 90 mil mortes em 1866. No Império Austríaco morreram 165 mil pessoas, sendo 30 mil na Hungria. A Bélgica perdeu 30 mil e a Holanda outras 20 mil pessoas. Em Londres quase seis mil pessoas morreram em 1866, em uma época em que a cidade investia na contrução do sistema de esgoto e ações rápidas das autoridades evitaram um número maior de mortos. Em 1867, 113 mil pessoas morreram na Itália e 80 mil morreram na Argélia. A pandemia ainda matou 50 mil pessoas nos Estados Unidos na dédaca de 1870, antes de terminar em 1875.

            A quinta pandemia de cólera aconteceu entre 1881 e 1896 e custou a vida de 250 mil pessoas na Europa, sendo 120 mil na Espanha, e 50 mil nas Américas. Na Rússia, 267 mil mortes em 1892. 90 mil morreram no Japão, 60 mil no Pérsia (Irã) e 58 mil no Egito. Foi o último grande surto de cólera na Europa, pois as cidades investiram nos sistemas de esgoto e água, principais focos de disseminação. A sexta pandemia de cólera, iniciado em 1899, causou pouco efeito na Europa Ocidental, graças aos avanços nos serviços de esgoto e saúde pública, mas na Rússia morreram centenas de milhares e o Império Otomano também perdeu muitas vidas. Nas Filipinas, 200 mil pessoas morreram entre 1902 e 1904, e 800 mil pessoas morreram na Índia. O último surto de cólera nos Estados Unidos aconteceu em 1911, quando um navio trouxe pessoas infectadas de Nápoles para Nova York, mas as autoridades de saúde isolaram os infectados e apenas onze pessoas morreram. Essa sexta pandemia terminou em 1923.

            A sétima e última pandemia de cólera começou em 1961, na Indonésia, chegando ao Paquistão Oriental (atual Paquistão) em 1963, na Índia em 1964 e na União Soviética em 1966. Chegou à Itália, através do norte da África em 1973. Foi um surto bem menos mortífero que os anteriores, atingindo apenas as comunidades mais pobres, onde o esgoto ainda corria a céu aberto. Evoluções nos tratamentos da doença também contribuíram para diminuir a mortandade. Desde então, pequenos surtos regionais aconteceram e, em alguns casos, a bactéria demonstra certa resistência aos antibióticos, alertando para problemas futuros. Os casos recentes mais importantes aconteceram no Peru entre 1991 e 1994 (10 mil mortos), República Democrática do Congo em 1994 (12 mil mortos) e Haiti em 2010 (9 mil mortos).


A Gripe

            Foi o médico grego Hipócrates, o “Pai da Medicina”, que descreveu a gripe pela primeira vez, em 412 a.C. A primeira pandemia de gripe registrada aconteceu em 1580 e, desde então, ocorrem a cada dez a trinta anos, geralmente sem muitos danos sobre as populações, mas, devidos a ocasionais mutações do vírus, algumas pandemias causam estragos maiores. A pandemia de gripe de 1889-1890 causou cerca de um milhão de mortes em todo o mundo. Conhecida na época como “gripe russa” ou “gripe asiática”, foi causada pelos subtipos do vírus Influenza H3N8 e H2N2. Relatada pela primeira vez em Bukhasa, no Uzbequistão, em maio de 1889, em outubro chegou à Rússia e na região do Cáucaso. O vírus se espalhou para oeste e leste, chegando na América do Norte em dezembro de 1889 e na  América do Sul em fevereiro de 1890, em março desse ano chegou na Índia e, em abril, na Austrália.

            A maior pandemia de gripe e uma das maiores pandemias no geral, ficou conhecida como a “Gripe Espanhola”, causada pelo subtipo H1N1, identificado pela primeira vez no Kansas, Estados Unidos, em março de 1918. Extremamente mortal e contaminante, o vírus se espalhou rapidamente pelo mundo todo, contagiando um terço da população mundial (cerca de 500 milhões na época),  desaparecendo completamente em apenas dezoito meses. Cerca de 17 milhões de pessoas morreram só na Índia (5% da população). Nos Estados Unidos foram registradas 675 mil mortes e no Reino Unido, 200 mil. Na  China, morreram entre 1 e 9 milhões, no Japão 390 mil e na Indonésia 1,5 milhão. Todos os cantos da Terra foram afetados. O Taiti perdeu 13% da sua população e Samoa 22% (38 mil pessoas). Na França foram 400 mil mortes, na Rússia 450 mil, no Canadá 50 mil e em Gana, outras 100 mil.

            No Brasil, a gripe espanhola chegou à bordo do navio inglês Demerara, que passou por Recife, Salvador e Rio de Janeiro espalhando o vírus, depois rumou para à Argentina. Cerca de 300 mil brasileiros morreram, inclusive o presidente recém-eleito Rodrigues Alves. Em São Paulo, a população passou a utilizar um remédio caseiro feito com cachaça, mel e limão, que não resolvia o problema, mas, segundo o Instituto Brasileiro de Cachaça, essa receita teria originado a nossa caipirinha.

            Outras três pandemias importantes de gripe surgiram desde então. A primeira, conhecida como “Gripe Asiática”, matou cerca de 2 milhões de pessoas no mundo, entre 1957 e 1958, e foi detectada pela primeira vez na China, em 1957. A segunda, a “Gripe de Hong Kong”, foi detectada pela primeira vez nessa ilha no início de 1968 e durou até 1972, matando cerca de um milhão de pessoas em todo o mundo. A última grande epidemia de gripo foi a “Gripe Suína”, que começou no México, no início de 2009 e causou a morte de 284 mil pessoas em todo o mundo, até 2010. Essa ultima pandemia nem pode ser considerada muito impostante, pois segundo a OMS, a gripe comum, denominada sazonal, mata entre 250 e 500 mil pessoas todos os anos no mundo.


Outras doenças causadoras de pandemias

            O tifo é um doença bacteriana, na verdade três doenças causadas por três tipos de bactérias: o tifo epidêmico, causado pela Rickettsia prowazekii, e transmitida por piolhos; o tifo scrub, causado pela Orientia tsutsugamushi e transmitida por ácaros; e o tifo muzino, causado pela Richettsia typhi e transmitida por pulgas. Essas doenças ficaram conhecidas como “febre de acampamanto”, febre da prisão” e “febre de navio”, por serem mais comuns em períodos de guerra e por serem mais facilmente transmitidas em locais apertados, como navios e prisões.

            Surgiu durante as Cruzadas e apareceu na Europa, na Espanha, em 1489, durante a guerra entre espanhóis cristãos e muçulmanos, quando a guerra matou 3 mil espanhois e o tifo 20 mil. Em 1528, 18 mil soldados franceses morreram de tifo na Itália e, em 1542, 30 mil franceses morreram da doença, quando lutavam contra os otomanos nos Balcãs. Mais soldados europeus morreram em decorreência do tifo entre 1500 e 1914 do que em ações militares. Outros surtos importantes da doença foram registrados nos campos de batalha: em 1813, 219 mil soldados de Napoleão foram mortos por essa doença; durante a Primeira Guerra Mundial, o tifo ceifou a vida de 150 mil soldados sérvios; e 3 milhões de russos morrerram de tifo entre 1918 e 1922. O tifo matou muitas pessoas nos campos de concentração nazista, incluindo 3,5 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos (dos 5,7 milhões) sob a custódia nazista.

            Outra doença de importância histórica é o sarampo, causado pelo vírus Meales morbillivirus, que é considerada um doença endêmica, ou seja, ela está presente continuamente em uma comunidade e muitas pessoas desenvolvem resistência a ela. Antes da introdução da vacina, em 1963, entre 3 e 4 milhões de pessoas eram contaminadas por ano no Estados Unidos, por exemplo. Cerca de 200 milhões de pessoas morreram por causa do sarampo nos últimos 150 anos e, apesar da vacina, só no ano 2000, a doença matou 777 mil pessoas em todo o mundo e infectou 40 milhões. Em 1529, uma epidemia de sarampo matou dois terços dos nativos cubanos, que tinham sobrevivido à varíola, e dois milhões de nativos mexicanos morreram da doença no século XVII. Entre 1848 e 1849, cerca de 50 mil nativos havaianos morreram do sarampo e outros 40 mil foram mortos nas Ilhas Fiji (um terço da população).

            Outro grande flagelo da humanidade no passado foi a tuberculose, causada pela bactéria Mycobacterium tuberculoris. Hoje em dia, a OMS estima que um humano é contaminado a cada segundo por essa bactéria, e que um quarto da população mundial já foi contaminada. Apenas 5 a 10% dos casos acabam evoluindo para uma doença ativa,. Anualmente, 8 milhões adoecem e cerca de 2 milhões morrem. Os antibióricos diminuíram muito a mortalidade causada pela tuberculose nos séculos passados. Até a década de 1950, era uma sentença de morte. No século 19, um quarto da população europeia morreu de tuberculose, e, em 1918, de cada seis mortes na França, uma era por causa da doença.

            A hanseníase, outrora conhecida como lepra, causada pelas bactérias Mycobacterium leprae e  Mycobacterium lepromatosis, é um doença crânica, de incubação lenta de até cinco anos. Desde 1985, 15 milhões de pessoas foram curadas dessa doença, que hoje, graças aos eficientes tratamentos não assusta muito as pessoas, mas antigamente ela causou grande sofrimento nas populações humanas. Históricamente a doença afeta pessoas desde meados de 600 a.C. E surtos da doença apareciam na Europa Ocidental desde 1000 d.C. No início do século XIII, por exemplo, haviam 19 mil leprosários (hospitais para leprosos) em toda a Europa.

            A Malária é uma doença comum em regiões tropicais e subtropicais e afeta entre 350 e 500 milhões de pessoas no mundo. Um dos problemas da malária é que o protozoário unicelular do gênero Plasmodium, que causa a doença, vem se tornando resistente a todos os medicamentos, exceto as atemisininas. A malária já foi comum na maior parte da Europa e da América do Norte, e hoje ainda afeta grandes regiões das Américas Central e do Sul, Ásia e África, sendo transmitida por mosquitos do gênero Anopheles. Fez muito estrago na época do Império Romano, onde era conhecida como “Febre Romana”. Introduzida na América, através do tráfico de escravos, devastou regularmente o sul e o centro-oeste dos Estados Unidos. O protozoário chegou da costa norte-americana do Pacífico na década de 1830 e durante a Guerra Civil Americana aconteceram mais de 1,2 milhão de casos dos dois lados. O sul dos Estados Unidos foi atingido por milhões de casos até a década de 1930. No Brasil, 99% dos casos se concentram na região amazônica.

            Outra doença trazida para a América com o tráfico de escravos foi a febre amarela, que no Brasil, ainda hoje, causa mais problemas do que a malária, por estar mais distribuída. A febre amarela é causada pelo Flavivirus e transmitida pelo mosquito Aedes aegyptis. No século XVIII, de 35 a 45 mil soldados enviados por Napoleão à Ilha de Hispañola morreram por causa da febre amarela. O primeiro surto da doença no continente americano aconteceu em Barbados, em 1647. Nos Estados Unidos, a primeira epidemia da doença aconteceu em Nova York, em 1668, e, em 1793, uma epidemia matou 5 mil pessoas na Filadélfia (10% da população). No Brasil, a primeira epidemia registrada aconteceu no Recife, em 1685. Vinte e cinco epidemias de febre amarela aconteceram nas Américas entre os séculos XVIII e XIX, sendo que os principais aconteceram no Chile, em 1741, em Cuba, em 1769 e 1900, em Santo Domingo, em 1803 e no Vale do Mississipi, nos Estados Unidos, em 1878 (com 20 mil mortos).


A COVID-19

            Os coronavírus (CoV) são uma grande família de vírus que causam de doenças que variam de resfriados comuns a doenças mais graves como a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS-CoV), também conhecida como “Gripe dos Camelos”, pois acredita-se que esses animais, que possuem anticórpos para o vírus, estejam envolvidos em sua disseminação entre os humanos, e a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS-Cov), registrada pela primeira vez no início do século, em Yunnan, na China, relacionada com morcegos que vivem na região. Apesar de perigosas, os casos dessas doenças são raros. Pelo menos até agora, quando uma nova cepa desse segundo vírus, nomeada SARS-CoV-2, tornou-se o causador da pandemia atual. Nomeada doença de Cornona Vírus-19 ou COVID-19 foi identificada pela primeira vez em Wuhan, na China em 2019, daí o nome. Esse caso mostra como um vírus de pouca importância no contexto médico pode se transformar em um problema de saúde mundial, uma pandemia, praticamente da noite para o dia e paralisar o mundo inteiro.

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