Divagações aleatórias sobre diferenças entre as narrativas biológicas e artificiais

No último texto, comecei a conversa dizendo que somos seres sociais. Que nossa principal característica e vantagem evolutiva é a capacidade que temos de socializar em grupos cada vez maiores. Mas como isso acontece? O que nos faz não sair sozinhos feitos dinossauros predadores e tentar resolver tudo sem a ajuda de ninguém?

Da caça aos mamutes à nova ordem mundial, foi nossa capacidade de organização em massa que proporcionou tal vantagem.

No entanto, antes de uma capacidade organizacional, existe um código genético que definiu tais habilidades (que, com certeza, foram aprimoradas com a evolução).

Outra característica da evolução é a morte. Todo esse código genético e aprendizado evolutivo, se um dia pararmos de morrer, e assim, de nos reproduzir, irá desaparecer.

Nesse sentido, todas nossas narrativas, filosóficas, políticas, religiosas, mitológicas, culturais, etc, partem do princípio que somos seres biológicos. Ou seja: nascemos, talvez nos reproduzimos, e, com certeza, iremos morrer.

Da adoração ao deus Sol ao monoteísmo moderno, passando pelo período feudal, monarquias, impérios e Estados democráticos, todas essas narrativas foram construídas e perpetuadas sob o princípio da mortalidade.

É a morte que traz a renovação. Novas ideias surgem com a morte de velhas ideias. E velhas ideias morrem junto com os humanos velhos. Assim sempre foi, e estamos acostumados a não ter sempre a mesma ideia como estrela por muito tempo. Não imaginamos um mundo onde Hitler ou Stalin sejam imortais, e, caso assim fosse, suas ideias se imortalizariam, também.

Mas a humanidade se tornou especial. Estamos criando uma civilização que nunca foi vista na história humana. Estamos construindo um futuro onde o cinema e suas ficções científicas se tornaram oráculos e uma vida cada vez mais binária, dividida entre o virtual e o biológico se confundem e apontam para um norte cada vez mais escuro.

Com a medicina avançada, robótica, vacinas, saneamento básico, entre outras, a humanidade deu um soco na cara da evolução. Nesse último século a humanidade se libertou da tirania evolutiva. Soltou os grilhões do gene egoísta. A genética, antes tida como intocável e desconhecida, cada vez mais se torna usual, e nosso código, que antes definia, até nossa morte, toda nossa estrutura física, se tornou apenas um modelo que está à disposição dos engenheiros geneticistas para ser editado e melhorado. A evolução, nos moldes Darwinianos, não se aplica mais aos seres humanos. E logo, quem sabe, não se aplicará a mais nenhum ser vivo do planeta. Mas pra isso, o conceito de vida vai ter que mudar. O velho conceito de evolução das espécies não vai mais ser convincente.

Com a engenharia genética, robótica, emulações de cérebro, humanos híbridos, inteligência artificial, nossa base de crenças, todas baseadas na morte, vai ser subvertida.

Como seria a mente de um ser humano melhorado? Com a engenharia genética, poderíamos gerar e selecionar humanos que não sentem tristeza, felicidade, amor.

Poderíamos gerar humanos que, contrariando a seleção natural, liberassem hormônios que causassem mau estar à um estimulo que nós consideraríamos bom.

Como seria o sistema de crenças de um ser humano que, através da robótica, e nano tecnologia, não adoece nem morre? O paraíso e o inferno seriam realidades sequer imagináveis em sua mente?

Mas acredito que enquanto todas essas melhorias ficarem no âmbito humano, seja de forma biológica ou artificial, mesmo que todo o sistema de crenças seja alterado, ainda assim, será humano e de uma certa maneira previsível.

No entanto, estamos entrando em um terreno perigoso quando pensamos em desenvolver uma inteligência artificial. Mesmo que, a princípio consigamos controlar essa inteligência, esse controle se tornará facilmente quebrado no instante seguinte em que alcancemos uma inteligência artificial de nível humano.

O perigo está batendo à nossa porta.

Ao redor do mundo diversas pesquisas científicas que buscam criar e desenvolver uma inteligência artificial de nível humano estão sendo desenvolvidas. Diferentes motivações. Premissas, talvez, com boas intenções, no entanto, nenhum cenário futuro à criação dessa inteligência artificial é vantajoso para os humanos.

O problema principal não é a inteligência artificial. O problema é que essa inteligência artificial, que o cinema e a literatura premeditaram, provavelmente nunca vai existir. Ou melhor, vai existir por alguns milissegundos, pois no instante seguinte ao “nascimento” de uma inteligência artificial de nível humano, essa nova forma de pensamento vai adquirir uma superinteligência.

Isso acontecendo, cometeríamos um erro capital ao pensar que essa nova forma de inteligência teria alguma semelhança de conceitos morais, éticos com o ser humano biológico.

Sistemas de crenças e sistemas lógicos seriam incompreensíveis para o homo sapiens. Razões, motivações completamente impensáveis em seres biológicos. Comunicação planetária de alcance instantâneo.

É um exercício dos mais criativos imaginar um futuro “pós inteligência artificial”.

O assunto é longo e abre um leque para dezenas de outros questionamentos e conclusões, mas se a história se manter reta, o futuro da humanidade (se é que terá um) é não-biológico e com uma inteligência artificial.

Há quem diga que o futuro da humanidade está no espaço sideral. Não há erro nessa análise, a não ser pelo fato de que essa humanidade que conquistará o universo não vai mais ser biológica. Nem mesmo humanidade será. O ser humano será mito.

Enfim seremos deuses.

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