Comportamento social e conexões neurais: uma analogia leiga

Somos seres sociais. Nossa estrutura genética se desenvolveu para dar vantagem evolutiva aos humanos que se uniam a outros humanos para realizar caças, guerras e outros tipos de relações colaborativas. Talvez, sem essa característica crucial, todas as outras vantagens evolutivas, como o polegar opositor e o cérebro diferenciado, não teriam a oportunidade de proporcionar à espécie humana um desenvolvimento social, político e tecnológico que possibilitou dominar e povoar todo o planeta. A espécie humana é biologicamente frágil. Sem garras afiadas nem presas ameaçadoras, somos um alvo fácil para qualquer predador que estivesse espreitando as redondezas.

Mas existe um porém. Nossa capacidade de socialização. Conseguimos nos reunir e, através da comunicação desenvolvida, nos ajudando de forma coesa e massiva, com estratégia e, como a história nos prova, com muita violência, superar as dificuldades de um corpo frágil. Passando da pré-história, toda caminhada humana pela terra foi marcada pela característica de cooperação da espécie. Revoluções, golpes de Estado, Guerras locais e mundiais, religiões, países e toda forma de instituição que organiza de forma sistemática um número cada vez maior de indivíduos em uma sociedade.

No entanto, ao meu ver, de uma maneira contra evolutiva, a humanidade vai caminhando à passos largos para uma individualização das relações sociais (por mais paradoxal que pareça). Graças a ideais egoístas que visam prevalecer o esforço individual, nossa principal característica evolutiva está sendo suprimida em nome de valores que, a princípio parecem motivadores e sensuais, mas não passam de ilusões contra evolutivas. Somos seres sociais.

Não somos um. A unidade é uma ilusão. Somos pequenas partes que interagem entre si e de forma aleatória de acordo com a experiência sensorial de cada indivíduo (ou noção de indivíduo).
O ser é maleável, inconstante, etéreo e o mais importante, o indivíduo é um grupo.

A ciência, assim, como a vida, não é fixa, mas maleável. O conhecimento, as dúvidas e as certezas não são fixas. Se existe uma verdade no universo é que nada é permanente. Nem mesmo as leis da física, que só tomamos por leis imutáveis por existirmos dentro de um espectro mínimo da existência cósmica, onde num momento anterior à nossa existência existiam determinadas leis; e quando não existirmos mais, teremos leis que ainda não existem. Esse espaço mínimo no tempo em que permanecemos
existindo forma a ilusão das leis imutáveis, quando, na verdade, tais leis são tão mutáveis quanto qualquer outro processo evolutivo.

Durante quase todo o século XX, a ciência afirmava que cada parte do cérebro era responsável por determinada função, como mexer um braço, piscar o olho ou abrir a boca. Essa é chamada de teoria localizacionista, onde se dizia que cada neurônio agia de forma independente e isolada de influência de outros neurônios.

Porém, a ciência, como já dito, não é permanente. No fim do século XX novos modos de pensar a mente e o cérebro, levaram um conjunto de cientistas, programadores, psicólogos, entre diversas outras disciplinas do conhecimento à levar em consideração uma perspectiva de funcionamento neural que, até então, era marginalizada pela sociedade científica.
Depois de diversos experimentos em laboratório, conseguiu-se provar que, além do cérebro não funcionar de forma localizacionista, que ele poderia ser dissociado do corpo.

A nova teoria, que foi denominada de “distribucionista”, diz que um estimulo sensorial externo, como o toque ou o mover de um braço não é ativado por uma parte especifica do cérebro, mas sim diversos
grupos neurais diferentes são ativados em diferentes áreas do cérebro.

Descobriu-se, também, que cada disparo neural, influencia neurônios que estão do seu lado. A intensidade dessa influência é diferente de acordo com o estimulo externo. Ou seja, cada estímulo, como o simples levantar de um braço, ativa diferentes áreas do cérebro que, a princípio, não estariam
ligadas ao estímulo primeiro, como áreas sentimentais.
Um neurônio sozinho não move, sequer, um braço.

Da mesma maneira que o cérebro e seus neurônios, a sociedade e seus indivíduos não agem de forma isolada. Nossas ações, nossas palavras e a intensidade com que proferimos nossos sentimentos e racionalidades, influenciam com mais ou menos intensidade os indivíduos ao redor, e esses, por sua vez, irão influenciar, a partir da primeira influência, de forma diferente que recebeu, os indivíduos ao seu redor.

Nesse sentido, a humanidade conseguiu se desenvolver em tribos, cidades, Estados, reinos e impérios.
Com líderes funcionando como gigantescos disparos neurais que acabariam por influenciar e perpetuar determinado pensamento. De ouvido em ouvido, como um telefone sem fio. Assim a humanidade se desenvolveu.
Por isso que filosofias individualistas são contra evolutivas de uma maneira social e antropológica, mas também de um ponto de vista genético e neural. Ir contra a coletividade é ir contra o funcionamento do próprio cérebro.

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