O fotógrafo, o menino e o abutre

A foto da criança morrendo de fome enquanto é observada por um abutre é um dos mais importantes e famosos registros da história da fotografia. Não por suas qualidades técnicas, mas por provocar, em cada um que a observa, sensações diversas e questionamentos profundos. A imagem causou comoção mundial e foi usada pela ONU para sensibilizar o mundo sobre a tragédia que estava acontecendo no Sudão, mergulhado em violenta guerra civil.

A foto foi tirada em 1993, pelo fotógrafo sul-africado Kevin Carter, que acompanhava uma missão humanitária da ONU. O avião da entidade pousou em um campo de refugiado em Ayed (hoje território do Sudão do Sul), Carter e outros profissionais saíram para fotografar o locar. O sul- africano se preparava para registrar a imagem do garoto desnutrido tentando seguir os pais até o centro de alimentação, quando um abutre pousou, criando a imagem icônica registrada por ele. Depois ele espantou a ave e foi chorar embaixo de uma árvore. A foto foi vendida para o “New York Times” e, depois, publicada em jornais e revistas do mundo todo.

Carter recebeu o Prêmio Pulitzer de Fotografia Especial em 1994 e uma enxurrada de críticas de todos os cantos do mundo, mas também cumpriu o objetivo da ONU ao convidar os fotógrafos, que era o de aumentar as arrecadações humanitárias para as vítimas da guerra sudanesa. O fim de Kevin Carter foi triste. Condenado pela opinião pública e por grande parte da imprensa, onde foi comparado ao abutre da foto, atormentado pelas imagens da guerra , afundado em dívidas, causadas por seus vícios em drogas, Carter entrou em profunda depressão e cometeu suicídio ainda em 1994 aos trinta e três anos de idade. O menino da foto, Kong Nyoung, viveu mais tempo. Sobreviveu à guerra e à fome, morrendo em 2006 em decorrência de uma febre, segundo seu pai.

Hoje, época em que todo mundo possui uma máquina fotográfica embutida no celular, os registros de imagens trágicas são cada vez mais comuns. Algumas tão profundas quanto o registro de Carter. A “insensibilidade” do fotógrafo para com o “modelo”, pelo qual Carter foi acusado, tornou-se
quase tão comum quanto o ato de fotografar. Tragédias pessoais são registradas todos os dias em todos os lugares, muitas vezes apenas com o objetivo de acumular curtidas e atenção nas mídias sociais, mas
muitas vezes, como no caso de Carter, partindo do princípio que uma imagem pode comover o mundo para um problema maior, unindo interessados em resolvê-lo. O caso também nos mostra o quanto é
necessário conhecer a história por trás da imagem antes de passarmos à condenação ou à glorificação. “Uma imagem vale mais do que mil palavras”, diz o velho ditado, mas qual o significado desse valor? Isso é o que devemos sempre questionar.

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