De Volta à Lua

Vi, alguns dias atrás, uma notícia que me chamou muita atenção. A reportagem mostrava as primeiras imagens mandadas por uma nova sonda indiana colocada em órbita da Lua. A missão completa da Chandrayaan-2, que em sânscrito significa “nave lunar”, incluía a aterrizagem do módulo lunar Pragyan próximo ao pólo sul lunar. Um problema no momento da aterrissagem impediu que a missão fosse concluída com sucesso. O módulo caiu de lado e ficou incapacitado. Os equipamentos do veículo fariam análises químicas e captação de imagens que seriam usadas para a criação de um mapa 3D da região. A Indian Space Reseach Organization (ISRO), a “NASA” indiana, acumula sucessos na última década, incluindo uma sonda em órbita de Marte e 104 satélites colocados em órbita da Terra,  de uma só vez, em fevereiro de 2019, recorde mundial. É a segunda missão indiana à Lua. A Chandrayaan-1, orbitou a Lua três mil vezes, entre outubro de 2008 e novembro de 2009, recolhendo setenta mil imagens de altíssima resolução da superfície lunar, além de análises químicas e topográficas. Toda a tecnologia usada nessas missões foi produzida na Índia.

A Índia está próxima de entrar para o informal e seleto “Clube da Lua”, do qual só fazem parte a Rússia, que mantém o recorde de distância percorrida por veículo humano em solo lunar, com 39 quilômetros alcançados pelo Lunokhod 2, em 1973; os Estados Unidos, com as missões tripuladas das Apollos; e a China, que pousou o veículo não tripulado Yutu, único a pousar no lado escuro do satélite natural. A Lua será invadida pelos humanos nos próximos anos. Diversos projetos estão em andamento, estatais e/ou privados. No dia 11 de abril deste ano, o motor da sonda lunar israelense Beresheet, enviada pela empresa Space L, falhou e a nave foi destruída na queda. Em março de 2019, o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, intimou a NASA a colocar uma dupla de astronautas na Lua em cinco anos, ameaçando recorrer às empresas privadas. Atualmente a NASA testa a nave Orion, que vai ocupar a vaga dos extintos ônibus espaciais. O projeto tem colaboração estrangeira no fornecimento de equipamentos, sendo que a European Spacial Agency (ESA) desenvolve, com tecnologia alemã, o módulo responsável pelo fornecimento de água, oxigênio e combustível da Orion. Exemplo de empresas privadas com projetos lunares incluem a norte-americana Astrobotic Technology, cujo lema é “tornar a lua acessível ao mundo”, que trabalha na sonda lunar Griffin, e a empresa alemã PT Scientists com a Audi Lunar 4.

Os planos da agência espacial russa (Roscosmos) é de médio a longo prazo, com uma missão tripulada à Lua até 2030 e uma base lunar até 2040. O alto custo é o principal motivo do desinteresse imediato dos russos. A nova aposta são as empresas privadas. Há alguns anos atrás, o Google ofereceu 17,5 milhões de dólares à primeira empresa privada que conseguisse pousar, a “baixo” custo, um veículo lunar capaz de percorrer quinhentos metros em solo lunar e transmitir imagens de alta resolução para a Terra. Ninguém conseguiu concluir a missão no prazo estipulado (fim de 2018), mas vinte e nove empresas, de dezoito países, se inscreveram, incluindo a brasileira Spacemeta. Os cinco finalistas foram a empresa indiana Teamindus, a japonesa Hakuto, a norte-americana Moon Express, a israelense Space L (citada acima) e a multinacional Synergy Moon.  

O interesse da iniciativa privada internacional aumenta consideravelmente o número de cientistas e engenheiros envolvidos na corrida espacial. O interesse principal de muitas dessas empresas são os lucrativos negócios gerados pela tecnologia de ponta resultante, mas negócios futuros incluem vôos turísticos para a Lua, aposta das empresas Virgin Galaxy, de Richard Brans, a Space X, de Elon Musk, e a Blue Origin, do dono da Amazon Jeff Bezos. Outra grande aposta futura é a mineração espacial, inclusive de asteroides. Na Lua, uma grande possibilidade é o hélio-3, potencial fonte de combustível para fusão nuclear, gás raro na Terra, mas abundante em solo lunar. Ainda não existe tecnologia para extrair o hélio-3 do solo lunar, mas muitas pesquisas neste sentido estão em andamento.

O futuro da humanidade está no espaço e começa pela Lua. As viagens espaciais sempre renderam avanços tecnológicos que fazem ou farão parte do nosso cotidiano. Cada vez mais, o espaço será integrado pela humanidade e ocupará os noticiários de forma crescente.Voltando ao início deste texto, o que me chamou a atenção naquela reportagem foi o fato da Índia, um país com problemas muito superiores aos do Brasil, avançar rumo ao espaço, enquanto, por aqui, a ciência encolhe e os investimentos em tecnologia de ponta são ínfimas. Eu me pergunto, e se Alcântara não tivesse explodido anos atrás?

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